
Crédito da ilustração
Chão batido
Fui ao enterro de um homem de 90 anos. Só à noite, em casa, me dei conta de quão impressionante era a dignidade do rosto com flores em torno. Beleza burilada pelas décadas de vida, alegria, sofrimento. Um homem que havia fraturado a memória e só falava, ultimamente, de passeios a cavalo, de hábitos, histórias e pessoas da infância. Chão batido, calça de tergal: morrer, imagino, foi como seguir sonhando com a mesma roça, as mesmas histórias de menino, as cadências de noites antigas como forrós embaçados ouvidos no rádio. Esse mundo, seja como for, Quincas levou inteiro consigo. Havia nobreza ascética em seu funeral sucinto, no cemitério municipal de Brotas.
Escrito por nilson galvao às 01h00
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Crédito da imagem
Um poema
Um poema não pertence ao mundo
como um relatório, uma bula
de remédio ou um romance. Um poema
é uma tentativa de recriar
o vácuo,
de onde se possa começar de novo
essa nossa loucura.
Escrito por nilson galvao às 10h20
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