Blag


Edward Munch: O Grito

 

Novo endereço

 

Cansei. Opa, não é o que você está pensando. Cansei do Uol Blog, que me deixou maluco sem acesso às ferramentas de edição do blog. Arrumei as malas e fui pra outra freguesia, um troço chamado wordpress que dizem ser o melhor do mundo. A ironia é que, só agora, resolvi tentar de outra máquina, e não é que funcionou? Pelo menos deu pra fazer o link pro novo endereço.

 

Aí vai: http://nilsonpedro.wordpress.com

 

 



Escrito por nilson galvao às 18h45
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M. C. Escher  - White Cat 1919 woodcut

Caixa-preta

 

Coração, caixa de guardar

o que em seu couro

repercute. Caixa do peito,

invólucro do tempo, ouve

o relojoeiro maluco, que nada,

que tudo, que nada, que tudo,

que nada, que tudo.

Caixa de abrir-se diante da ciência

e negar-lhe a verdade, se o gato

morreu, se viveu, se morreu, se viveu,

se morreu, se viveu. Coração caixa oca,

bumbo da crueza, bumbo da beleza,

bumbo da incerteza.

 



Escrito por nilson galvao às 23h59
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Henri Matisse: Ícaro

O corpo além

 

O corpo quer ser apesar de. Cansaço

deste enredo que rola

nas células, nos órgãos, imprime

sentenças, espasmos, pontos de exclamação

e de interrogação, peripécias e sentimentos,

novas peripécias e ressentimentos,

cenas dos próximos capítulos de novo,

e de novo, e de novo.

O corpo só quer esquecer: ir

além.

 



Escrito por nilson galvao às 00h26
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Crédito da Foto

Os olhos de Ibrahim Ferrer

 

Uma canção é menos

que o cantor, uma canção

não vale o olhar vago,

o passo em falso,

o compasso.

 



Escrito por nilson galvao às 15h57
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Crédito da imagem

Hidráulica

 

O encanador constata que não há entupimento na pia da cozinha, portanto é da esfera do condomínio, lá fora, a causa dos estranhos barulhos que sobem pelo ralo. Uma pia regurgitando, como se contivesse água fervente vindo lá dos intestinos do prédio, dá uma sensação invasiva tipo Alien, o oitavo passageiro.

 

Tour pelo Edifício Bela Praia, palmilhando o encanamento ao lado de Sabino, o encanador: lição de hidráulica?

 

Mesmo dia, no Cardiocentro do Hospital Santa Isabel: o médico examina o resultado da angiotomografia que esquadrinhou a aorta abdominal do meu pai. Está lá o aneurisma na altura do intestino, já denunciado pelo ultra-som, motivo de férias conturbadas, viagem de volta a Salvador antes do previsto.

 

O médico pergunta se tenho noção de hidráulica!!!

 

Elementar: se parte da artéria fica abaulada, o sangue, ao invés de fluir normalmente, faz movimento em forma de espiral nesse trecho. As paredes são pressionadas, podem romper. Meu pai já toma betabloqueador, pode esperar sem sobressaltos pela cirurgia para instalação de uma espécie de prótese. Ele está confiante, e isso é bom.

 

Mistérios hidráulicos. Medos hidráulicos.

 



Escrito por nilson galvao às 13h14
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Salvador Dali: Nascimento do homem

Dito não-dito

 

O passado

te reordena.

 



Escrito por nilson galvao às 20h47
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Crédito da foto

Jornada

Alma nada mais é que passado. É o que me ocorre, aqui, onde fui. A cidade cresceu um bocado, ganhou movimento no comércio e lojas de grife. Quase todos são estranhos. Antes, eu vinha e topava com fisionomias conhecidas de pessoas com quem nunca falara. Eram estranhos familiares. Esses agora, se ainda existem, estão diluídos pela horda dos estranhos de fato estranhos, que se apossaram das ruas, das praças, das lanchonetes. Isso me alivia, de certa forma. Se os bárbaros tomaram conta, eu serei um dos bárbaros. Minha alma, finalmente liberta, pode fazer as pazes com os fragmentos de si mesma, e eis que se materializam a professora da terceira série, que parece perplexa quando informo ter sido seu aluno há nada menos que trinta anos; o professor de história, recém-saído de um livro de Eça de Queiroz; o velhinho de boné que deve ter uns cem anos; Rui Lobo, uma espécie de intelectual orgânico, seja-lá-o-que-signifique-o-conceito-gramsciano-já-que-nunca-estudei-essa-porra; e os amigos de eras distintas, Ratinho e Lourinho, da infância, hoje Ednaldo e Lima, e Roberto e Jorge Valério, da adolescência, hoje Roberto e Jorge Valério, exatamente como há vinte anos com a diferença dos filhos. Brumado não me pertence, nunca me pertenceu, e eu tampouco pertenço a Brumado. Estamos quites. Podemos crescer, sim. Há lan houses em toda parte.

 

 

 



Escrito por nilson galvao às 16h49
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Crédito da imagem

Canção do exílio

 

Agora nada mais,

só o vento em teu dorso de escravo,

só o vento fazendo lembrar as terras de além mar

que além do mar te circundam,

teu corpo de escravo.



Escrito por nilson galvao às 08h48
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main image

Crédito da ilustração

Lelé e Betinho

 

Tio Lelé e Tio Betinho

partiram de mãos dadas

para fora:

embriagados, como sempre,

da suja inocência dos que vêem

na vida esse brinquedo que é bom

mesmo quebrado, mesmo reduzido

à idéia do que deveria ser.

Tio Lelé e Tio Betinho

nunca se permitiram encerrar a busca

pelo inominável, fatídico, último

desejo dos que vão pelo caminho

equívoco: sair por aí, e não mais voltar.

 



Escrito por nilson galvao às 08h40
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Crédito da ilustração

Saturno

 

O caminho reto nem sempre é o mais curto.

Entre dois pontos pode ser longo

o caminho reto.

Hesitar diante dos atalhos.

Ir direto a lugar algum.

Parar e dar mil voltas em torno de

si mesmo, de sua própria, fatídica

retidão.

Render-se ao destino: linhas retas

curvam-se ao vazio pleno de energia

que nos circunda.

 

 



Escrito por nilson galvao às 17h52
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Textures 3

Crédito da foto

Forró

Para Elomar

 

Ouço luzes.A gente cria

num dia desses.

Cheiro rascante de estrume,

inspiração, expiração

e o halo do tempo esse arco

de tudo. O que a gente come rumina,

sem dúvida volta seja como for,

merda pode ser que a bênção

nos escape.

A gente cria todo dia, roça

infinita do que a gente cria,

palavra, palavra, palavra

no pó.

 



Escrito por nilson galvao às 00h21
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Pintura rupestre

Equação

 

Toda palavra é tardia,

novesfora a poesia.

 



Escrito por nilson galvao às 17h28
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Crédito da ilustração

Chão batido

 

Fui ao enterro de um homem de 90 anos. Só à noite, em casa, me dei conta de quão impressionante era a dignidade do rosto com flores em torno. Beleza burilada pelas décadas de vida, alegria, sofrimento. Um homem que havia fraturado a memória e só falava, ultimamente, de passeios a cavalo, de hábitos, histórias e pessoas da infância. Chão batido, calça de tergal: morrer, imagino, foi como seguir sonhando com a mesma roça, as mesmas histórias de menino, as cadências de noites antigas como forrós embaçados ouvidos no rádio. Esse mundo, seja como for, Quincas levou inteiro consigo. Havia nobreza ascética em seu funeral sucinto, no cemitério municipal de Brotas.

 



Escrito por nilson galvao às 01h00
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René Magritte: Chateau des Pyrénées

 

Pentecostes

 

Toda língua é mero reflexo

da primeira inaudita palavra

que lapidamos.

 



Escrito por nilson galvao às 00h32
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Di Cavalcanti: Pierrô, arlequim e colombina

 

Linha reta

(Diluição de Pessoa)

 

Felicidade é uma festa

na casa do vizinho.

 



Escrito por nilson galvao às 15h07
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BRASIL, Nordeste, SALVADOR, RIO VERMELHO, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Escrevinhador de gaveta.
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